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Ao sucesso

Há neste país (e na América Latina, em geral) uma cultura pequena de “não valorizar o trabalho”. Empreender sem risco, investimento ou esforço é o ouro de tolo. Todos esperam ser atendidos em suas necessidades, de acordo com suas idiossincrasias e, pasmem, na hora que têm vontade. Esperamos que terceiros nos digam o que fazer, que “especialistas” validem opiniões e por aí vai. Isto é sintoma de que ainda estamos na “menoridade”, por nossa própria falta de esclarecimento ou, em bom alemão: Aufklarüng. Mas, deixemos a profundidade de lado, para não aumentar nossa culpa.

Como eu estava dizendo, de alguma forma não acreditamos em nosso potencial. A maioria das pessoas, quando não está sonhando em ganhar na loteria, exige que o governo resolva seus problemas e sejam abolidos os impostos. Em casa, demandamos compreensão da família, diminuição da violência, preços baixos e respeito dos filhos. Normalmente o que vemos de manhã à tarde é um desfile de ressentimentos. Pergunte a alguém: – Como vai. Tudo bem? Se ele for sincero: Senta que lá vem a história!

Na vida profissional a ladainha do “alguém precisa me ajudar” é uma triste constante: os fornecedores devem ser “parceiros”, os compradores precisam notar o “valor agregado” dos produtos; o patrão tem de reconhecer e valorizar nosso trabalho! Já nossos subordinados devem dar “mais contribuição” e menos problemas. Se a coisa não vende, o produto é ruim, o preço é alto ou os dois. Quando o prazo estoura, houve necessidade de contingenciamento. Se estivermos soltos no “mercado” é preciso que apareçam vagas e quando acaba a reunião, esperamos que aplaudam nossas idéias. Para nossas empresas queremos eliminar a concorrência e baixar dramaticamente os custos, mantendo margem.

Apostamos nossa existência em fatores externos, tidos sempre como “direitos” embora poucos saibam o que significam deveres. Isto está presente em todas as áreas. Do que falo? Além do “efeito vaselina”, sofremos da falta crônica de visão de longo prazo. E, para piorar, estamos voltando ao dualismo primário dos utilitarismos, ou como dizem hoje em “informatiquês”: pensamento binário. Simples: É ou não é! Server ou não server! Velho ou novo! Bom ou ruim! Contra ou a favor! Mas o que é a realidade: Como consultor, analiso todos os dias pérolas e absurdos, que são tratados como “verdadeiras”  questões vitais:
 
- Pô! Fui lá e não tinha nada! Eu avisei.
- Gente! Não pode mandar email fora do perfil!
- Dane-se o seu departamento. O mundo não é justo e as empresas também não (putz!)
- Alguém sabe como trabalhar aqui? Me mande de novo as planilhas…
- Pode olhar no estoque… Sumiram 14 toneladas!
- Pra quê EPI? Vamo lá assim mesmo (Ui!)
- Gerir é só cortar custos, ter mão forte e sempre dar sustos.

O ponto culminante desta situação é que, mesmo as organizações demandando cada vez mais “competências” para uma função, o negócio não vai para frente. Há muito ralo, muita “fábrica oculta” e apodrecimento organizacional. Tudo bem diante do nariz do “board” ou ao lado do “management” e o pessoal só fala o dia inteiro nas “5 forças de Porter”, “Gestão Estratégica” ou a necessidade do “Tarot Siberiano” na seleção de pessoal. Agir em bases racionais, recompensar talentos, rever processos, demolir os preconceitos, qualificar ou implantar inovações, não! Aí estraga a brincadeira! Tem que melhorar sem mudar, treinar ou gastar, gritam os tiranos do alto de suas “Workstations”.
 
Eu tenho a impressão que o CHA que as pessoas tanto falam deve ser de cogumelos! Mas a questão principal não é “técnica”, mas ética: Vemos os outros, seus serviços, seus pertences, suas idéias, suas vidas, sentimentos, corpos, experiências e domínios como “parte da sociedade” e, por extensão de nosso mundo. Então chutamos o pau da barraca logo de cara, pois nossa individualidade narcisística exige reparação. Ficamos indignados com a distância a que são relegados nossos anseios e descontamos no primeiro que aparece. Ao nos sentirmos desvalorizados, desvalorizamos o entorno de nossas relações. Quando vemos, estamos distantes de nossas metas e desgastados precocemente.
 
A falta ética também é ignorância dos problemas comuns e que recusamos a considerar como importantes. Quem deseja rumar em direção ao sucesso deve estar consciente da topografia a ser vencida. Isto inclui, desde as mais imponentes muralhas, até o insignificante pedregulho. Aliás, cuidado com eles, pois a maioria não tromba com a montanha, mas é derrubado pela sucessão de pequenas coisas. O que eu relato aqui pode ser estendido para toda a nossa gestão. Ela deve ser sustentável ou perecerá.

Ou seja, vale desde o topo ao chão de fábrica, dentro de uma espiral lógica w dentro de uma visão 360º. Inclui a “tomada de posição”, mas principalmente consciência da missão. Esta postura deve ser retransmitida não só por todas as formas de comunicação, mas a todos os relacionamentos: aos emails que não respondemos; aos olhares que desviamos, aos telefonemas que não retornamos; a atenção às pessoas importantes que nunca ouviram de nós que as amamos; às desculpas que nunca pronunciamos, aos profissionais que retiramos da invisibilidade ao dizer: bom trabalho!

Não é suficiente acreditar que basta nos indignarmos, para tomar as rédeas de situação. Quem pensa assim está fora da realidade: A Indignação é revolta contra um estado de coisas e pressupõe AÇÃO. Normalmente apenas reclamamos e em nossa covardia frente às “economias de mercado” ao mundo ou às opiniões aceitas, nos escondemos na hora do combate. Para usar uma expressão desgastada de Hannah Arendt, sofremos de uma “banalização do mal”.  Para sair desta situação é preciso determinação, sentimento, racionalidade e valor.

Parafraseando Gandhi: O sucesso não é uma meta, mas o próprio caminho! Você vai prá onde?

 

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